 sobre comandos. Servirá sob as ordens de Sor
Gregor.
Tyrion deu uma dentada no leitão, mastigou por um
momento e depois cuspiu-o, zangado.
- Afinal, parece que não tenho fome - disse, erguendo-se
desajeitadamente do banco. - Com a sua permissão, senhores.
Lorde Tywin inclinou a cabeça, concedendo-a. Tyrion virou-
se e afastou-se. Desceu a colina bamboleando, consciente dos
olhos dos homens às suas costas. Uma grande rajada de
gargalhadas ergueu-se atrás dele, mas não virou a cabeça.
Que todos eles se engasgassem com seus leitões.
O crepúsculo caíra, pintando de negro todos os estandartes. O
acampamento Lannister estendia-se ao longo de milhas entre
o rio e a Estrada do Rei. Por entre os homens, os cavalos e as
árvores, era fácil perder-se, e foi o que aconteceu a Tyrion.
Passou por uma dúzia de grandes pavilhões e por uma
centena de fogueiras para cozinhar. Vagalumes esvoaçavam
por entre as tendas como estrelas vagabundas. Detectou um
cheiro de salsichas de alho, temperado e saboroso, tão
tentador que lhe fez rugir o estômago vazio. Ouviu, a
distância, vozes que se erguiam numa canção obscena
qualquer, Uma mulher passou por ele correndo, aos risinhos,
nua sob uma capa escura, com um perseguidor bêbado que
tropeçava nas raízes das árvores. Mais adiante, dois lanceiros
enfrentavam-se por sobre um riozinho de água, treinando sua
estocada-e-parada à luz que se desvanecia, com os peitos nus
lustrosos de suor.
Ninguém olhou para ele. Ninguém lhe falou. Ninguém lhe
prestou a mínima atenção. Estava rodeado por homens que
tinham prestado vassalagem à Casa Lannister, uma vasta
tropa de vinte mil, e no entanto estava sozinho.
Quando ouviu o profundo estrondo do riso de Shagga
ressoando na escuridão, seguiu-o até os Corvos de Pedra e o
pequeno canto que ocupavam na noite. Cronn, filho de
Coratt, acenou com uma caneca de cerveja.
- Tyrion Meio-Homem! Vem, sente-se junto à minha fogueira,
partilhe a carne com os Corvos de Pedra. Temos um boi.
- Estou vendo, Cronn, filho de Coratt - a enorme carcaça
vermelha estava suspensa sobre um fogo que rugia, enfiada
num espeto do tamanho de uma pequena árvore. Sem dúvida
que era uma pequena árvore. Sangue e gordura pingavam
sobre as chamas enquanto dois Corvos de Pedra viravam a
carne. - Agradeço-lhe, Mande me chamar quando o boi estiver
pronto - pelo aspecto, isso talvez acontecesse ainda antes da
batalha. Continuou a andar.
Cada clã tinha sua própria fogueira; os Orelhas Negras não
comiam com os Corvos de Pedra, os Corvos de Pedra não
comiam com os Irmãos da Lua, e ninguém comia com os
Homens Queimados. A modesta tenda que tinha arrancado
dos armazéns de Lorde Lefford depois de algumas bajulações
fora erigida no centro das quatro fogueiras. Tyrion encontrou
Bronn partilhando um odre de vinho com os novos criados.
Lorde Tywin enviara-lhe um cavalariço e um criado pessoal
para atender às suas necessidades, e até insistira para que
aceitasse um escudeiro. Estavam sentados em torno das
brasas de uma pequena fogueira. Tinham uma jovem com
eles; magra, de cabelos escuros, aparentemente com não mais
de dezoito anos, Tyrion estudou-lhe o rosto por um momento,
antes de ver espinhas de peixe entre as cinzas.
- O que comeram?
- Trutas, senhor - disse o cavalariço. - Bronn as apanhou.
Truta, pensou. Leitão. Maldito seja o meu pai. Olhou com ar
fúnebre para as espinhas, com a barriga rugindo.
O escudeiro, um rapaz com o infeliz nome de Podrick Payne,
engoliu o que quer que se preparava para dizer. O rapaz era
um primo distante de Sor Ilyn Payne, o carrasco do rei... e era
quase tão silencioso como ele, embora não por falta de uma
língua. Tyrion obrigara-o a colocá-la para fora uma vez, só
para ter certeza. "É definitivamente uma língua", dissera.
"Algum dia vai ter de aprender a usá-la."
No momento não tinha paciência para tentar arrancar um
pensamento do rapaz, que suspeitava que lhe tinha sido
imposto como uma brincadeira cruel. Tyrion voltou sua
atenção à moça.
- É ela? - perguntou a Bronn.
Ela se ergueu num movimento gracioso e olhou para ele, da
majestosa altura de um metro e meio ou mais.
- É, senhor, e ela pode falar por si mesma, se assim quiser.
Tyrion inclinou a cabeça para um lado.
- Sou Tyrion, da Casa Lannister. Os homens chamam-me
Duende.
- Minha mãe chamou-me Shae. Os homens chamam-me...
com frequência. Bronn riu-se, e Tyrion teve de sorrir.
- Para a tenda, Shae, por favor - ergueu a aba e a manteve
erguida para ela passar. Lá dentro, ajoelhou-se para acender
uma vela.
A vida de soldado não era desprovida de certas compensações.
Onde quer que se erguesse um acampamento, era certo
aparecerem seguidores. Ao fim da marcha do dia, Tyrion
enviara Bronn de volta, a fim de lhe arranjar uma prostituta
apropriada. "Preferia uma razoavelmente jovem, tão bonita
quanto consiga encontrar" dissera. "Se se lavou em algum
momento deste ano, ficarei contente. Se não, lave-a.
Assegure-se de lhe dizer quem sou e a previna do que sou."
Jyck nem sempre se incomodara em fazer aquilo. Havia um
olhar